fbpx

Como Conversar com Garotas em Festas

Neil Gaiman

— Vamos — disse Vic. — Vai ser legal.

— Não, não vai — discordei, embora soubesse que era uma briga perdida.

— Vai ser demais — insistiu Vic, pela centésima vez. — Garotas! Garotas! Garotas! — Ele sorriu com dentes brancos.

Ambos cursávamos uma escola para rapazes no sul de Londres. Embora fosse mentira dizer que não tínhamos nenhuma experiência com garotas — Vic parecia ter tido muitas namoradas, e eu beijara três amigas da minha irmã -, acho que seria a mais pura verdade dizer que ambos quase só falávamos e interagíamos com outros rapazes — para nós, as meninas eram quase incompreensíveis. Bem, comigo era assim, pelo menos. É difícil falar por outra pessoa, e não vejo Vic há trinta anos. Não tenho certeza de que saberia o que dizer a ele se o encontrasse agora.

Estávamos andando pelas ruazinhas cheias de fuligem que se entrelaçavam num labirinto atrás da estação East Croydon. Um amigo falara a Vic de uma festa, e ele estava determinado a ir, quer eu gostasse, quer não — e eu não estava gostando. Mas meus pais tinham viajado para uma conferência e eu estava hospedado na casa de Vic, portanto, era obrigado a acompanhá-lo.

— Vai ser como todas as outras vezes — protestei. — Depois de uma hora, você vai sumir pra dar uns amassos na garota mais bonita da festa, e eu vou ficar na cozinha ouvindo a mãe de alguém falar sobre política, poesia ou qualquer outra coisa.

— Você só precisa conversar com elas — argumentou Vic. — Acho que é aquela rua ali no final. — Ele apontou alegremente, balançando a sacola com a garrafa.

— Você não sabe onde é?

— Alison me explicou e eu anotei num pedaço de papel, mas esqueci na mesa do corredor. Mas tudo bem. Eu me viro.

— Como? — A esperança cresceu lentamente dentro de mim.

— A gente anda pela rua — ele disse, como se estivesse falando com uma criança retardada —, e procura a festa. Fácil.

Eu procurei, mas não vi nenhuma festa: só casas estreitas com carros enferrujados ou bicicletas em quintais cimentados, e as vidraças empoeiradas das bancas de jornal, que cheiravam a especiarias estrangeiras e vendiam de tudo, de cartões de aniversário e gibis usados a revistas pornográficas, daquelas que vinham lacradas em plástico. Certa vez, Vic enfiou uma dessas revistas por baixo do suéter, mas o proprietário da banca o pegou na calçada, do lado de fora, e o obrigou a devolver.

Chegamos ao fim da rua e viramos a esquina de uma viela cheia de casas com varandas. Tudo parecia muito silencioso e vazio na noite de verão.

— Pra você é fácil — eu disse. — Elas te curtem. Você não precisa conversar com elas. —

Era verdade: um sorrisinho safado do Vic, e ele podia escolher qualquer uma.

— Não. Não é assim. Você só precisa conversar.

Nas vezes em que beijei as amigas da minha irmã, eu não conversara com elas. Elas estavam ali, minha irmã estava fazendo alguma coisa em outro lugar, e foram elas que se aproximaram, então eu as beijei. Não me lembro de ninguém ter dito nada. Eu não sabia o que dizer para uma garota, e falei isso para Vic.

— São só garotas — ele retrucou. — Não são seres de outro planeta.

Ao seguirmos pela curva da rua, minhas esperanças de que a festa não pudesse ser encontrada começaram a desaparecer: um pulsar grave, de música abafada por paredes e portas, vinha de uma casa logo em frente. Eram oito da noite, não muito cedo para quem ainda não tem 16 anos, e a gente não tinha. Não mesmo.

Meus pais gostavam de saber onde eu estava, mas acho que os pais de Vic não se importavam muito. Ele era o mais novo de cinco irmãos, todos homens. Só isso já me parecia mágico — eu só tinha duas irmãs mais novas, e me sentia único e solitário. Sempre quis ter um irmão, desde que me conheço por gente. Quando completei 13 anos, parei de fazer pedidos para estrelas cadentes ou para a primeira estrela da noite, mas, na época que ainda fazia, eu sempre pedia um irmão.

Andamos pelo passeio no jardim, um mosaico de cacos que passava por uma cerca viva e uma roseira solitária e levava até a fachada revestida de pedra. Tocamos a campainha e a porta foi aberta por uma garota. Eu não saberia dizer a idade dela, e isso era uma das coisas que eu começava a detestar nas garotas: no começo, todos éramos meninos e meninas, e o tempo passava na mesma velocidade, e todos tínhamos 5, 7 ou 11 anos juntos. Até que, de repente, todas as garotas correm para o futuro e te deixam para trás, e sabem tudo sobre todas as coisas, menstruam, têm seios, usam maquiagem e só Deus sabe mais o quê — porque eu certamente não sabia. Os livros de biologia não explicavam, de um jeito realista, o que era ser um jovem adulto. E as garotas da nossa idade eram.

Vic e eu não éramos jovens adultos, e eu estava começando a suspeitar que, mesmo quando precisasse fazer a barba todo dia, e não a cada duas semanas, ainda estaria muito atrasado.

A garota disse:

— Oi?

Vic anunciou:

— Somos amigos da Alison.

Tínhamos conhecido Alison — sardenta, muito ruiva, dona de um sorriso maroto — em Hamburgo, num intercâmbio. Os organizadores do intercâmbio haviam mandado algumas garotas conosco, de uma escola para moças da região, para dar uma equilibrada. As garotas, mais ou menos da nossa idade, eram bagunceiras e engraçadas, e tinham namorados mais ou menos adultos, com carros, empregos, motos e — no caso de uma garota de dentes tortos e casaco de pele, que me contou isto tristemente num fim de festa em Hamburgo, na cozinha, é claro — esposa e filhos.

— Ela não está — disse a garota da porta. — Nada da Alison. Sem problemas — respondeu Vic, com um sorriso espontâneo. — Meu nome é Vic. Este é o Enn. — Uma pausa, e aí a garota sorriu para ele. Vic trazia numa sacola de plástico uma garrafa de vinho branco, roubada do armário da cozinha dos pais. — Onde é que eu ponho isto?

Ela abriu passagem e nos deixou entrar: — A cozinha é lá no fundo. Deixe em cima da mesa, junto com as outras garrafas. — Ela tinha cabelo dourado, ondulado, e era muito bonita. O corredor estava escuro, mas eu podia ver que era bonita.

— E qual é mesmo o seu nome? — perguntou Vic.

Ela disse que era Stella, e ele abriu um sorrisão torto e branco e comentou que era o nome mais lindo que já tinha ouvido na vida. Que cara-de-pau! E o pior é que dizia isso como se estivesse falando sério.

Vic foi para os fundos deixar o vinho na cozinha, e eu olhei para a sala de estar, de onde vinha a música. Tinha gente dançando ali. Stella entrou e começou a dançar, deixando-se levar pelo ritmo da música, sozinha, e fiquei observando-a.

Isso foi no início da época do punk. No nosso toca-discos, a gente tocava lhe Adverts, The Jam, The Stranglers, The Clash e Sex Pistols. Nas festas dos outros, você ouvia ELO,14 lOcc ou até Roxy Music. Um pouco de Bowie, talvez, se tivesse sorte. Durante o intercâmbio na Alemanha, o único LP que agradava a todos era Harvest, de Neil Young, e a canção “Heart of Gold” se tornara o refrão da viagem: I crossed the ocean for a heart of gold…

Eu não consegui reconhecer a música que estava tocando naquela sala. Parecia um pouco um grupo alemão de pop eletrônico chamado Kraftwerk, e lembrava também um LP que eu ganhara no meu último aniversário, de sons estranhos produzidos pelo Laboratório Radiofônico da BBC. Mas a música tinha um ritmo, e as poucas garotas dançavam ali graciosamente, embora eu só tivesse olhos para Stella. Ela brilhava.

Vic passou por mim segurando uma lata de cerveja lager e entrou na sala.

— Tem bebida lá na cozinha disse. Ele foi até Stella e começou a conversar com ela. Eu não conseguia ouvir o que eles diziam por causa da música, mas sabia que não havia espaço para mim naquele papo.

Naquela época eu não gostava de cerveja. Fui ver se havia algo que me apetecesse, e encontrei na mesa da cozinha uma garrafa grande de Coca-Cola. Sem me atrever a dizer nada para as duas garotas que estavam conversando na penumbra, enchi um copo de plástico. Elas estavam animadas e eram completamente adoráveis. As duas tinham pele muito negra, cabelo brilhante, roupas de estrela de cinema, sotaque estrangeiro, e eram muita areia pro meu caminhãozinho.

Saí de lá com a Coca na mão.

A casa era mais comprida do que parecia, maior e mais elaborada do que normalmente são os sobrados, com dois cômodos embaixo e dois em cima. Os quartos eram mal iluminados — duvido que houvesse uma lâmpada de mais de 40 watts lá — e cada quarto em que eu entrava tinha gente: nas minhas lembranças, somente garotas. Não fui para o andar de cima.

Só havia uma garota no jardim de inverno. Seu cabelo era tão claro que chegava a ser branco, era comprido e liso, e ela estava sentada à mesa de tampo de vidro, com as mãos unidas, contemplando o jardim e o crepúsculo. Parecia tristonha.

— Você se incomoda se eu sentar aqui? — perguntei, apontando com o copo. Ela balançou a cabeça, e depois deu de ombros, para indicar que para ela tanto fazia.

Vic passou pela porta do jardim de inverno. Estava conversando com Stella, mas me viu sentado à mesa, envolto em timidez e constrangimento, e abriu e fechou a mão, imitando uma boca.

Fale. Certo.

— Você é daqui mesmo? — perguntei.

Ela fez que não. Usava uma blusa prateada decotada, e eu tentei não ficar olhando para o volume dos seus seios. Eu disse:

— Qual o seu nome? O meu é Enn. Ao que ela respondeu:

— Wain de Wain — ou algo parecido. — Sou uma segunda.

— Nossa, que nome diferente.

Ela me encarou com olhos enormes e cristalinos.

— Ele indica que quem me gerou também se chamava Wain, e que sou obrigada a me reportar a ela. Eu não posso procriar.

— Ah. Bom, também, ainda é meio nova pra isso, né?

Ela separou as mãos, levantou-as sobre a mesa, esticou os dedos.

— Está vendo? — O dedo mindinho de sua mão esquerda era torto, e se bifurcava na ponta, dividindo-se em duas pontas menores. Uma pequena deformidade. — Quando fui concluída, era necessária uma decisão. Eu seria mantida ou eliminada? Tive sorte, a decisão me favoreceu. Agora viajo, enquanto minhas irmãs mais perfeitas ficam em estado de êxtase. Elas foram primeiras. Eu sou uma segunda. Logo terei que retornar para Wain, e lhe contar tudo o que vi. Todas as minhas impressões sobre este lugar de vocês.

— Na verdade, eu não moro em Croydon — expliquei. — Não sou daqui.

Eu me perguntei se ela era americana. Não estava entendendo nada do que ela dizia.

— Como você diz — ela concordou —, nenhum de nós dois é daqui. — Ela fechou sua mão de seis dedos por baixo da outra, como se quisesse escondê-la —Eu esperava que fosse maior, mais limpo e colorido. Mas, mesmo assim, é uma joia.

Ela bocejou, cobriu a boca com a mão direita, só por um segundo, antes de pousá-la novamente sobre a mesa.

— Começo a ficar cansada destas jornadas, e às vezes desejo que terminem. Numa rua do Rio, no carnaval, eu os vi numa ponte, dourados, altos, com olhos e asas de insetos, e, deleitada, quase corri para saudá-los, antes de perceber que eram apenas pessoas fantasiadas. Eu perguntei a Hola Colt: “Por que eles se esforçam tanto para parecer conosco?”. E Hola Colt respondeu: “Porque se detestam, todos em tons de rosa e marrom, e tão pequeninos”. E o que eu percebo, até eu, e não sou crescida. Parece um mundo de crianças, ou de elfos. — Então ela sorriu. — Ainda bem que nenhum deles podia ver Hola Colt.

— Hum… quer dançar? — perguntei—

Ela balançou a cabeça imediatamente:

— Não é permitido. Eu não posso fazer nada que possa causar danos à propriedade. Eu sou de Wain.

— Quer beber alguma coisa, então?

— Água — ela disse.

Fui para a cozinha, peguei mais Coca para mim e enchi uma caneca com água da torneira. Da cozinha, passando pelo corredor, voltei para o jardim de inverno, que então estava totalmente vazio.

Eu me perguntei se a garota teria ido ao banheiro e se, mais tarde, mudaria de idéia sobre dançar. Voltei para a sala de estar e dei uma olhada. Estava enchendo de gente. Havia mais garotas dançando e vários caras que eu não conhecia, e que pareciam alguns anos mais velhos do que eu e Vic. Os caras e as garotas mantinham distância, mas Vic estava segurando a mão de Stella e dançando, e, quando a música terminou, ele pôs o braço em seus ombros, casualmente, com ar quase de dono, para garantir que ninguém a levaria embora.

Pensei que a garota do jardim de inverno podia estar no andar de cima, porque no térreo ela não estava.

Entrei no living, que ficava do outro lado do corredor, em frente à sala onde as pessoas dançavam, e me sentei no sofá. Já havia uma garota sentada ali. Ela tinha cabelo preto, curtinho, espetado, e um jeito nervoso.

Fale, pensei.

— Hum, esta caneca d’água está sobrando — disse. — Você quer?

Ela fez que sim, esticou a mão e pegou a caneca, com extremo cuidado, como se não estivesse acostumada a pegar coisas, como se não pudesse confiar nem em sua visão, nem em suas mãos.

— Adoro ser turista — ela comentou, e sorriu com hesitação. Tinha os dentes do meio separados, e tomava a água da torneira como se fosse uma adulta degustando um vinho fino. — Na última viagem, fomos para o sol, e nadamos nos lagos de fogo com as baleias. Ouvimos suas histórias e nos arrepiamos no frio dos lugares externos, depois nadamos para o fundo, onde o calor brotava e nos confortava. Eu queria voltar lá, queria mesmo. Havia tanta coisa que eu não vira. Em vez disso, viemos para este mundo. Você gosta?

— Do quê?

Ela fez um gesto vago mostrando a sala — o sofá, as poltronas, as cortinas, a lareira a gás apagada.

— É, acho legal.

— Eu disse a eles que não queria visitar o mundo — ela contou. — Meu progenitor-professor não se impressionou. “Você aprenderá muita coisa”, ele disse. Eu insisti: “Eu aprenderia mais voltando para o sol. Ou indo para as profundezas. Jessa tecia teias entre galáxias. Quero fazer isso.” Mas não houve como convencê-lo, e eu vim para o mundo. Progenitor-professor me absorveu, e eu apareci aqui, incorporada num monte de carne em decomposição grudado numa estrutura de cálcio. Ao encarnar, senti coisas dentro de mim, remexendo, bombeando e esguichando. Foi minha primeira experiência empurrando ar para fora da boca, fazendo as cordas vocais vibrarem, e eu as usei para dizer a progenitor-professor que queria morrer, e ele reconheceu que essa era a inevitável estratégia para sair do mundo.

Ela usava uma pulseira de contas pretas, e mexia nelas enquanto falava.

— Mas conhecimento há, sim, na carne — continuou a garota —, e estou resolvida a aprender com ela.

Estávamos sentados perto do meio do sofá. Decidi que devia pôr o braço em seus ombros, mas como quem não quer nada. Eu ia estender o braço pelo encosto do sofá e depois abaixá-lo devagar, quase imperceptivelmente, até tocá-la. Ela disse:

— Essa coisa do líquido nos olhos, quando o mundo fica embaçado. Ninguém me contou, e eu ainda não entendo. Eu toquei as dobras do Sussurro, pulsei e voei com os cisnes taquiônicos, e mesmo assim não entendo.

Ela não era a garota mais bonita da festa, mas não era feia, e, afinal, era uma garota. Deixei meu braço escorregar para baixo, cuidadosamente, até encostar nos seus ombros, e ela não falou nada.

Aí Vic me chamou da porta. Segurava Stella pela cintura, com ar protetor, acenando para mim. Tentei fazê-lo entender, balançando a cabeça, que eu estava me dando bem, mas ele repetiu meu nome. Contrariado, levantei do sofá e fui até a porta.

— Que é?

— Er. Olha. A festa — começou Vic, em tom de desculpas — não é a festa que eu pensava. Conversando com Stella acabei me dando conta disso. Bem, ela meio que me explicou.  Estamos na festa errada.

— Meu Deus! Deu algum problema? Precisamos ir embora?

Stella fez que não. Ele se curvou e beijou sua boca suavemente.

— Você está feliz por eu ter vindo, não está, amor?

— Você sabe que sim — ela disse.

Ele olhou para mim de novo e abriu seu sorriso branco: maroto, adorável, meio Artful Dodger, meio Príncipe Encantado da malandragem.

— Não se preocupe. Todos são turistas aqui. É um intercâmbio, né? Como da vez que a gente foi pra Alemanha.

— Ah é?

— Enn. Você tem que falar com elas. Isso significa que precisa escutar o que elas dizem também. Entendeu?

— Eu falei. Já conversei com duas.

— E tá dando certo?

— Estava, até você me chamar.

— Foi mal. Olha, eu só quis te deixar a par. Certo?

Ele deu um tapinha no meu braço e foi embora com Stella, escada acima.

Entenda, todas as garotas daquela festa, na penumbra, eram adoráveis, tinham rostos perfeitos. Mas, mais importante do que isso, tinham aquela estranheza de proporções, de esquisitice ou de humanidade que faz uma garota bonita ser mais do que um manequim de vitrine. Stella era a mais linda de todas, mas ela, é claro, era do Vic, e eles estavam indo para o andar de cima — e era assim que as coisas sempre seriam.

Várias pessoas tinham se sentado no sofá, falando com a garota dos dentes espaçados. Alguém contou uma piada e todos riram. Eu teria que me acotovelar para sentar ao lado dela de novo, e ela não parecia estar me esperando, nem se importar que eu tivesse ido embora, por isso fui para o corredor. Os convidados continuavam dançando, e me perguntei de onde viria aquela música. Eu não via nenhum toca-discos, nem alto-falantes.

Do corredor, voltei para a cozinha.

Cozinhas são legais em festas. Você nunca precisa de um pretexto para estar lá, e a vantagem era que nessa festa eu não estava vendo nem sinal da mãe de alguém. Inspecionei as diversas garrafas e latas sobre a mesa e derramei um dedo de Pernod no fundo do meu copo descartável, enchendo-o depois de Coca. Coloquei dois cubos de gelo e tomei um gole, curtindo o gosto adocicado da bebida.

— O que você está bebendo? — Uma voz feminina.

— É Pernod — respondi. — Tem gosto de bala de anis, só que é alcoólico. — Eu não contei que só tinha experimentado porque ouvira alguém da platéia pedir Pernod num show do Velvet Underground.

— Posso tomar também?

Servi mais Pernod, completei com Coca e passei para ela. Seu cabelo era ruivo acobreado, em cachos que envolviam sua cabeça. Não é um penteado muito comum hoje em dia, mas na época era.

— Qual é o seu nome? — perguntei.

— Triolé.

— Nome bonito — eu disse, mesmo duvidando daquilo. Mas ela era bonita.

— É um tipo de poesia — explicou a garota, com orgulho. — Como eu.

— Você é um poema?

Ela sorriu e desviou o olhar, talvez com vergonha. Seu perfil era quase reto — um nariz grego perfeito que descia da testa em linha reta. Encenamos Antígona no teatro da escola no ano anterior. Eu interpretei o mensageiro que leva a Creonte a notícia da morte de Antígona. Usamos meias máscaras que pareciam o rosto dela. Pensei naquela peça, olhando para ela na cozinha, e também nas mulheres desenhadas por Barry Smith nos gibis do Conan. Cinco anos depois, eu teria pensado nos pré-rafaelitas, em Jane Morris e Lizzie Siddall, mas eu só tinha 15 anos ali.

— Você é um poema? — repeti. Ela mordeu o lábio inferior:

— Se você quiser. Sou um poema, ou um padrão, ou uma raça cujo mundo foi tragado pelo mar.

— Não é difícil ser três coisas ao mesmo tempo?

— Qual o seu nome?

— Enn.

— Então você é Enn — ela disse. — E você é do sexo masculino. E é um bípede. É difícil ser três coisas ao mesmo tempo?

— Mas não são coisas diferentes. Quero dizer, não são contraditórias. — Era uma palavra que eu havia lido muitas vezes, mas nunca dito em voz alta antes daquela noite, e acentuei a sílaba errada.

Contradítorias.

Lia usava um vestido leve, feito de um tecido branco, sedoso. Seus olhos eram de um verdeclaro que hoje me faria pensar em lentes de contato coloridas, mas isso foi há trinta anos, as coisas eram diferentes naquela época. Lembro que pensei em Vic e Stella lá em cima. Aquela altura, eu tinha certeza de que eles estavam num dos quartos, e invejei Vic com uma intensidade quase dolorosa.

No entanto, eu estava conversando com aquela garota, ainda que só falando coisas sem pé nem cabeça, ainda que o nome dela não fosse mesmo Triolé (minha geração não tinha nomes hippies:  todas as Luanas, Mels, Sois e Ceumares tinham apenas 6, 7 ou 8 anos, na época). Ela disse:

— Sabíamos que o fim estava próximo, por isso pusemos tudo num poema, para contar ao universo quem éramos, por que estávamos aqui e o que dizíamos, fazíamos, pensávamos, sonhávamos, desejávamos. Embrulhamos nossos sonhos em palavras e moldamos as palavras para que vivessem para sempre, inesquecíveis. Depois, enviamos o poema como um padrão de fluxo, para aguardar no coração de uma estrela, emitindo sua mensagem em pulsos, erupções e chiados por todo o espectro eletromagnético, até que, em mundos a mil sistemas solares dali, o padrão fosse decodificado e lido, e se tornasse um poema de novo.

— E aí o que aconteceu?

Ela me olhou com seus olhos verdes, e foi como se ela estivesse me olhando através de sua meia-máscara de Antígona, mas como se aqueles olhos verde-claros fossem apenas uma parte diferente, mais profunda, da máscara.

— É impossível ouvir um poema sem que ele mude você — observou ela. — Eles o ouviram, e o poema os colonizou, tomou posse deles, e os habitou. Os ritmos do poema passaram a fazer parte do modo de pensar deles. Suas imagens transformaram para sempre as metáforas deles. Seus versos, seu modo de ver, suas aspirações se tornaram a vida deles. Depois de uma geração, as crianças já nasciam sabendo o poema, e logo, porque essas coisas são assim, já não nasciam mais crianças. Não havia necessidade delas, não mais. Só havia um poema feito carne que andava e proliferava por toda a vastidão do conhecido.

Eu me aproximei até sentir minha perna encostando na dela. Ela pareceu gostar:  delicadamente, pôs a mão no meu braço, e um sorriso se abriu no meu rosto.

— Há lugares onde somos bem-vindos — continuou Triolé —, e outros onde somos vistos como ervas daninhas ou como doenças, algo a ser imediatamente posto em quarentena e eliminado. Mas onde termina o contágio e começa a arte?

— Eu não sei — falei, ainda sorrindo. Eu podia ouvir a estranha música pulsando na sala de estar, se espalhando e ressoando pela casa toda.

Então ela se inclinou na minha direção e — acho que foi um beijo… acho. Bem, ela pressionou seus lábios contra os meus, e depois, satisfeita, recuou, como se tivesse me marcado como sua propriedade.

— Você quer ouvir? — perguntou, e fiz que sim, sem saber direito o que ela estava oferecendo, mas convencido de que precisava de qualquer coisa que ela estivesse disposta a me dar.

Ela começou a sussurrar algo no meu ouvido. Isso é o mais estranho na poesia — dá pra saber que é poesia, mesmo quando é numa língua que a gente não conhece. Você pode ouvir Homero sem entender uma palavra, e mesmo assim sabe que é poesia. Já ouvi poesia polonesa, poesia inuíte, e eu sabia o que era sem saber. Seu sussurro era assim. Eu não entendia a língua, mas suas palavras me atravessavam, perfeitas, e em minha mente eu via torres de vidro e diamante, pessoas com olhos do verde mais pálido, e, por baixo de cada sílaba, sentia o avançar sem trégua do oceano invencível.

Talvez eu a tenha beijado de verdade. Não me lembro. Só sei que eu queria.

E aí Vic me chacoalhou com violência.

— Vamos! — ele gritava. — Depressa. Vamos!

Na minha cabeça, comecei a voltar de mil quilômetros de distância.

— Idiota. Vamos! Anda logo! — esbravejou ele, me xingando. Havia fúria em sua voz.

Pela primeira vez naquela noite, reconheci uma das músicas tocadas na sala de estar. Um triste uivo de saxofone seguido por uma cascata de acordes líquidos, uma voz de homem cantando versos recortados sobre os filhos da era silenciosa. Eu queria ficar e ouvir a canção.

Ela disse:

— Eu não terminei. Ainda tem mais de mim.

— Desculpa, amor — interveio Vic, mas não estava mais sorrindo. — Haverá outra ocasião.

— Ele agarrou meu cotovelo com força, me obrigando a sair da sala. Não tentei resistir. Eu sabia, por experiência, que Vic podia me encher de porrada se quisesse. Não fazia isso a não ser que estivesse alterado ou furioso, e estava furioso ali.

Seguimos para o hall de entrada. Enquanto Vic abria a porta, olhei para trás uma última vez, sobre o ombro, esperando ver Triolé na porta da cozinha, mas ela não estava lá. Vi Stella, porém, no alto da escada. Estava olhando para Vic, e vi o rosto dela.

Tudo isso aconteceu há trinta anos. Esqueci muita coisa, e vou esquecer mais, e no fim vou esquecer tudo. No entanto, se eu tenho alguma certeza de vida após a morte, ela está envolta não em salmos ou cantos religiosos, mas apenas nisto: sei que jamais vou esquecer aquele momento, ou a expressão no rosto de Stella quando ela viu Vic se afastando às pressas. Até depois de morto vou me lembrar.

Suas roupas estavam amarrotadas, sua maquiagem estava borrada, e seus olhos…

Nunca deixe um universo furioso. Aposto que um universo furioso olharia pra você com aqueles olhos.

Nós corremos, então, eu e Vic, para longe da festa, das turistas e do crepúsculo, corremos como se uma tempestade elétrica estivesse nos perseguindo, num ímpeto louco e desesperado por aquela confusão de ruas, vencendo o labirinto, e não olhamos para trás, nem paramos enquanto podíamos respirar. E então paramos, ofegantes, incapazes de correr mais. Sentimos dor. Eu me apoiei no muro, e Vic vomitou muito, por muito tempo, na sarjeta.

Ele limpou a boca.

— Ela não era uma… — Ele parou.

Balançou a cabeça. E então ele continuou:

— Sabe… acho que tem uma coisa. Sabe quando você vai até onde ousa ir? E, se você fosse mais longe, não seria mais você? Você seria a pessoa que fez aquilo? Lugares aonde não se pode ir… Acho que isso aconteceu comigo hoje.

Achei que sabia o que ele queria dizer:

— Transar com ela, é isso?

Ele esfregou os nós dos dedos com força na minha têmpora, girando-os com violência. Eu me perguntei se ia ter que brigar com ele — e apanhar —, mas, depois de um momento, ele abaixou a mão e se afastou de mim, engolindo seco, silenciosamente.

Olhei-o com curiosidade e percebi que ele chorava: seu rosto estava vermelho, e lágrimas escorriam dos olhos. Vic estava soluçando na rua, descontroladamente, como um menininho. Era de cortar o coração. Então ele se afastou de mim, com os ombros tremendo, e saiu correndo pela rua para que eu não visse seu rosto. Eu me perguntei o que acontecera no andar de cima que o deixara daquele jeito, que o assustara tanto, e não consegui nem imaginar.

As lâmpadas da iluminação pública foram se acendendo, uma a uma. Vic caminhava na minha frente, trôpego, enquanto eu o seguia pela rua, no crepúsculo, marcando com os passos a métrica de um poema que, por mais que tentasse, não conseguia lembrar e jamais seria capaz de repetir.

* * * fim * * *

Esta é uma página-teste do aplicativo BiblioTechie, que será lançado no início de 2021. Assinando o BiblioTechie, você terá acesso a centenas de histórias dos melhores escritores do Brasil e do mundo e verá novas histórias sendo publicadas todo dia. A ideia é permitir que você leia e comente as melhores histórias curtas (até uma hora de leitura) no celular.

Se você quiser receber mais informações sobre o BiblioTechie próximo do lançamento do aplicativo, preencha por favor os dados abaixo. A gente promete mandar apenas um eMail e não usar os dados para mais nada, tá?

Alguns de nossos textos, para você:

A Cela Um, de Chimamanda Ngozi Adichie
As Ruínas Circulares, de Jorge Luis Borges
Não Há Cobras na Irlanda, de Frederick Forsyth
Como Conversar com Garotas em Festas, de Neil Gaiman
Amor, de Clarice Lispector
O Velho e o Mar, de Ernest Hemingway